De volta ao extremo sul da Bahia e suas mudanças vocacionais

Quando eu menos esperava, já me encontrava dentro da minha Parati a caminho de uma das mais prósperas regiões de produção de carne e leite do Nordeste, talvez do Brasil. Seria uma das mais marcantes experiências de vida. A intenção era abrir minha própria empresa de venda de sêmen e consultoria em zootecnia.

Conhecido como a “Costa do Descobrimento”, o extremo sul da Bahia constituiu-se, na década de 1990, num dos maiores produtores de carne de qualidade do Nordeste, forjando novilhos cruzados de qualidade nos úteros de excepcionais matrizes Tabapuã. Pode-se afirmar com segurança que a raça também fez parte da formação do atual rebanho leiteiro da região, gerando as rústicas e produtivas F1 Holandês do passado e 5/8 do presente. Já no rebanho leiteiro, a região figurou como uma das principais fornecedoras do produto no estado.

A Zadra Zootecnia contava com grandes figuras no seu quadro técnico: Euclides Martins, o Cridão, zootecnista de rara experiência de campo e um dos mestres que tive na ciência da bovinocultura. `A ele devo minha transformação de paulistano urbanoide no homem do campo que sou hoje. Contávamos também com o veterinário Cícero Brito, um dos melhores e mais conceituados profissionais do estado no assunto “Equinocultura”. Além disso, Brito trazia a cultura do catingueiro para dentro da empresa. Com esse time, em cinco anos formamos uma legião de clientes e amigos, que confiavam nas nossas sugestões em genética, manejo, sanidade e reprodução.

Quando criamos a Zadra em Teixeira de Freitas, já sabíamos que a região tinha um número de matrizes de corte e leite impressionante para os padrões do Nordeste e, quiçá, do Brasil. A demanda por conhecimento em genética, reprodução, manejo e sanidade era assustadora. Os capixabas e mineiros que, na década de 1980, haviam se instalado na região através da exploração de madeira, formaram pastagens e aproveitaram as condições climáticas ideais para a cria de bezerros e bois de qualidade. Contudo, tiveram de corrigir o solo, que fora intensamente lixiviado pelo brutal regime de chuvas naquelas paragens, manejando-o adequadamente a fim de minimizar a arenosidade encontrada em alguns locais.

Quando nos referimos a cruzamentos na região, vale lembrar de uma noite de muita chuva e barro em que cheguei à fazenda do Dr. Armando, em Medeiros Neto, trazendo uma fita cassete, a fim de mostrar-lhe a raça Senepol no Paraguai. Para minha surpresa, o mesmo já tinha vacas Red Norte (Santa Gertrudis x Red Angus x Tabanel) prenhes de Senepol. O uso intensivo da raça se fez presente na formação do composto Red Norte a partir daquele ano. Dr. Armando Leal do Norte, um dos meus mestres em cruzamento, sumidade e um ícone na matéria, criou e desenvolveu na prática o insubstituível programa Red Norte, o bovino composto para o trópico úmido, trazendo consigo a marca de precocidade sexual nas novilhas, habilidade materna, ganho de peso e pelo zero a todos animais lá originados. Através dele, o programa Novilho precoce ganhara na região uma legião de adeptos fazendo e divulgando o cruzamento industrial.

Já no gado leiteiro, as matrizes F1 Holandês/Tabapuã cingiam as melhores terras, onde ora se usava sêmen de Guzerá sobre essas cruzadas, com o intuito de se fazer bezerros azebuados pesados para venda. Com a melhora do manejo nutricional e chegada da suplementação, deu-se início à tentativa de se produzir leite com vacas ¾ Holandesas. Essa “depuração” genética não foi acompanhada pela modernização total no manejo alimentar e não conseguiu se perpetuar naquele clima úmido e quente.

Nesse meu retorno à região, estive na Fazenda de Gildesio Nascimento, produtor de leite tecnificado e apaixonado pela atividade. Ele seguiu formando o 5/8 Holandês.

Foi uma agradável surpresa deparar com vacas em produção, rotacionando numa área de 10 hectares irrigados, divididos em mais de 30 piquetes. Sua produção fica acima de 1.000 litros/dia,  isso em apenas 10 hectares, com 70 vacas Girolando sendo suplementadas minimamente na estação seca. Gildesio já vem preparando outros módulos rotacionados para outros grupos de vacas próximas a parir, para, pelo menos, quintuplicar a produção de leite na mesma área da fazenda.

A invasão do eucalipto nas áreas de pastagens, que já me deixava assustado quando larguei o extremo Sul em 2.000, fez da região a maior produtora de papel de celulose e carvão para siderúrgicas do país, com uma produção por área que chega a 1,5 vez a média nacional, tirando o sono dos laticínios e frigoríficos regionais.

A última notícia que tivemos foi à volta do Dr. Armando a Carlos Chagas, a sua terra natal, após vender sua produtiva fazenda e todo o gado em Medeiros Neto. O extremo Sul perde muito com a saída desse ilustre especialista e entusiasta da produção sustentável de carne de qualidade.

Em recente pesquisa da UESC sobre a reorganização socioeconômica do extremo sul da Bahia, decorrente da introdução da silvicultura, concluiu-se que a grande oferta de empregos só ocorreu nos períodos de instalação das fábricas. Decorrido esse período, a quantidade de empregos diminuiu significativamente (DIAS, 2001).

Pode-se afirmar que a implantação do segmento de celulose na região provocou um processo intenso de êxodo rural. Como consequência, houve o aumento desordenado da população urbana.

Sabemos da importância da pluralidade agropecuária para o país. No entanto, no tocante à silvicultura, deve-se, nessa região, desenvolver a integração Lavoura/Floresta/ Pecuária, como o Sr. Leodônio já vinha fazendo com sucesso em Mucuri nos idos de 1998. Quem sabe, não nos restringiremos à monocultura, como alguns vêm praticando naquelas veredas maravilhosas do extremo sul.

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